COMO O POVO FALA OU FALAVA
É dos tempos da candeia
O quê venho aqui falari
Q´esta gente portugueisa
Só tinha a candeia aceisa
Cando era p´ra cear
No tempo dos meus avós
Havia boa ónião
Ceávamos todos à mensa
Era a última refêção
E minha avó atrasada
De ´star a abanar ó fogão
Vinha p´ra mensa apressada
Desculpava-se co cravão
E todos d´ímpé fecávamos
P´ra fazeiramos oração
E ó despois nos assintavamos
P´ra comeireimos o fêjão
E nas horas do travalho
Não havia openião
Comíamos do mesmo tacho
Sintavamos o cu no tchão
Iamos à senhô da Pova
E lá comprávamos ma bonecra
E cando tchegávos à terra
Davamosa à nossa neta
P´ros garotoso ma carrola
Dasquelas que têm ma pomba
Como eiles queriem ma bola
Mostarvem-nos cá cada tromba!
E atão na romaria
Era fartar de comeire
E toda a gente se ria
Co ti Zéi sempre a boeire
E já em casa cansados
De tanto andar a péi
Avintávamos cô tchale
E os homens cô bonéi
E despois ó outro dia
Punhamos todos a pinsar
No que dava a romaria
Quéra só pra tchatiar
Porque o ti Zéi já ca pinga
Começava a barafustar
Por uma merda cagada
Que nem tinha por onde se pegar
Lá porque a mulher comprou
Umas tristes alpargatas
Logo ele ali arranjou
Mas poucas de zargatas
E comêramos e boeramos
E dançáramos no arraial
E alguns dançarem bem
Mas outros dançarem mal
E as catchopas e os rapazes
Aquilo é que era bailhar
E andavem lá p´ros cantos
E a gente a veilos bêjar
Agora é ma pôca vargonha
Já nem há respêto não
E nem se pode falari
Porque eiles é que têm rezão
E as crianças a brincar
Às vezes tamém brilhavem
E suas mães sempre a relhar
P´ro pé delas os tchamavem
Não fui eu dizia um
Eu só queria era jogar
E tu tirastes ma bola
Mas anda que lá na escola
Inda mas hades pagar
E era ma linda festa
A da senhêra da Pova
Sempre lá he-de voltari
Inté que vá para a cova
E viva a senhô da Pova
Qu´eu p´ro ano lá hêde ir
Ó a péi ó a cavalo
Muto mêde advertir
(2003)
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